No domingo 17 de maio, em Montevidéu, foi-se Mario Benedetti.
Pela primeira vez chorei com lágrimas a morte de alguém de quem só conheci a obra. Os contos de Benedetti me encantam, mas na sua poesia encontrei eco e pano de fundo para grande parte da minha vida. Consola-me pensar que em algum mundo encantado brilha mais uma luz.
Meu jeito de homenageá-lo foi traduzir um de seus poemas, não o mais bonito, mas o que fala de adeus. Faço de conta que foi escrito para mim. Divido com vocês, capazes de compreender.
Adeus número três
Mario Benedetti
Tradução de Celina Portocarrero
Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pores-do-sol
e teus amanheceres.
Semeando tua confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
segura sem seguro.
Deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta rota.
Deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mutiladas
sem minha imaturidade
sem minha veteranice.
Mas também não creias
de pés juntos em tudo
não creias nunca creias
neste falso abandono.
Estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anciã
de obscuros cabeceios.
Estarei num distante
horizonte sem horas
na marca do tato
em tua sombra e minha sombra.
Estarei repartido
em quatro ou cinco meninos
desses para quem olhas
e em seguida te seguem.
E tomara possa estar
de teus sonhos na trama
esperando teus olhos
e te olhando.





