neurotóxicos

... e chuvas esparsas

No domingo 17 de maio, em Montevidéu, foi-se Mario Benedetti.
Pela primeira vez chorei com lágrimas a morte de alguém de quem só conheci a obra. Os contos de Benedetti me encantam, mas na sua poesia encontrei eco e pano de fundo para grande parte da minha vida. Consola-me pensar que em algum mundo encantado brilha mais uma luz.

Meu jeito de homenageá-lo foi traduzir um de seus poemas, não o mais bonito, mas o que fala de adeus. Faço de conta que foi escrito para mim. Divido com vocês, capazes de compreender.


Adeus número três
Mario Benedetti
Tradução de Celina Portocarrero

Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pores-do-sol
e teus amanheceres.

Semeando tua confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
segura sem seguro.

Deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta rota.

Deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mutiladas
sem minha imaturidade
sem minha veteranice.

Mas também não creias
de pés juntos em tudo
não creias nunca creias
neste falso abandono.

Estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anciã
de obscuros cabeceios.

Estarei num distante
horizonte sem horas
na marca do tato
em tua sombra e minha sombra.

Estarei repartido
em quatro ou cinco meninos
desses para quem olhas
e em seguida te seguem.

E tomara possa estar
de teus sonhos na trama
esperando teus olhos
e te olhando.

... que aqui é meu lugar...



  • De repente, vontade de voltar a este blog.
    Mesmo endereço, talvez novo formato.
    Para começar, poesia em prosa,
    reconhecimento francês do Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa:

    Quem não leu em portugês, leia que vale a pena.
    Quem leu, releia e/ou presenteie.
    Para ter uma idéia: Adriana Lisboa/Sinfonia
    E, no embalo, visitem o blog da Adriana em Caquis Caídos

  • Marcadores:

    A se acreditar nos românticos
    um mais um, idealmente,
    igual a um.
    Para os lógicos,
    nenhuma dúvida
    de que somam dois.
    Para os descuidados
    o resultado pode ser três
    (e isso logo da primeira vez).
    A vida, que não aprendeu tabuada,
    demonstra muitas vezes,
    excessivas vezes,
    que, subtraídos os sonhos,
    um mais um
    acabam se decompondo
    em apenas um e um.

    Criei um novo blog, o http://retroretratos.blogspot.com/, onde tento registrar as emoções do lançamento de meu primeiro livro. Passem por lá e deixem suas impressões. Há um pouco de cada um de vocês neste meu Retro-Retratos. Beijos a todos.

    eis o motivo da minha ausência, comemorem comigo

    OBRIGADA: sem vocês nada teria acontecido!

    quem estiver no rio será mais que bem-vindo:
    vou adorar conhecer pessoalmente estes amigos tão importantes


    por algum tempo só de ver andei vivendo

    em terras tantas vezes repisadas

    e esquinas sempre ainda inexploradas

    por muito tempo só de ser andei me vendo

    a degustar imagens

    respirar sabores

    e tropeçar em praças

    a confundir catedrais

    por muito tempo sem saber andei querendo

    descobrir novas janelas

    me perder pelas ruelas

    enveredar, me enredar

    por tanto tempo só de ver andei vivendo

    que de escrever o olhar foi se esquecendo

    não sei pomar

    onde cultivar

    de vento um pé

     

    não há quem venha

    me trazer segredos

    do ouvido ao pé

     

    sinto distantes

    aqueles tempos

    de arrasta-pé

     

    não sei alguém

    de quem eu queira

    pegar no pé

     

    ou um capricho

    que inda me faça

    fincar o pé

     

    mesmo ficando

    de pé atrás

    já que não posso

    perder o pé

     

    a mim só resta

    sem muito jeito

    seguir na vida

    pé ante pé

    em haustos febris
    utópicas quimeras
    crêem reais
    possíveis
    factuais
    e não perecíveis
    tapetes que
    me conduzam
    a novas realidades
    asas que me transportem
    a ansiadas quietudes
    sonhos que me arrebatem
    e povoem devaneios
    extasiem os anseios
    da donzela
    cinderela
    que em mim teima
    vir morar