neurotóxicos

... e chuvas esparsas


Ele existe ou foi num sonho?
E se existe onde estará?
Hoje vem? Hoje não vem?
As perguntas eram muitas:
ninguém para responder.


Pra saber foi à janela.
Sentiu vento, secou chuva,

neve houvesse, gelaria.
Não havia. Veio o sol,

esfriou, anoiteceu.


Na sacada ela esperou
anos, meses, tantos dias:

ninguém pras horas dizer.


Foi ficando, foi pensando,
em pedra se transformando...
de tanto querer saber

esqueceu-se de ir viver.


Ela existe ou é um sonho?
Se existe sei que está
num lugar bem lá distante,
num tempo que não se diz,
olhos fixos e brilhantes:

ninguém para perceber.


Das névoas das noites emergem reflexos
(serão refluxos?)
de sombras, de mágoas, de horrores, de gritos.
De vozes malditas e dores não ditas.

Nas luzes dos dias rebrilham refluxos
(reflexos?)
de cores, de risos, de amores, de ritos.
Sussurros ouvidos há muito esquecidos.

Menina escondida,

mocinha encolhida,

mulher decidida

a não ser nunca mais

abafada

sufocadanuladamarfanhadespezinhada

usada ou mal passada.

Antes só que mal acompanhada?

Mas que nada...

Folha em branco, lápis na mão,
angústia na cara
estampada
pra só ver quem sabe ler.

O grito
que quer sair
embaça a lente do olhar,
a idéia contorce as mãos,
vai insistir e desiste:
pega carona no ar e louca se atira
na frente do trem.

Viu aquilo em algum filme,
esquece que a vida é real:
aqui, se a fumaça acaba,
não é fim, é vai-e-vem.