neurotóxicos

... e chuvas esparsas

Quando penso em mim criança,
não me lembro de brincar,
não me lembro de ser livre,
não me lembro de correr.
Lembro sim de me encolher,
lembro bem de me esconder,
de ter medo e de tremer.
Lembro do fundo do armário,
do escuro atrás do espelho,
do final do corredor.
Lembro de dor e de susto,
do querer ser diferente,
da vontade de não-ser.

Preciso de pá e picareta, de martelo e de marreta.

Escada de cem degraus

e rede de segurança, que afinal não sou criança.

A torre é alta e me assusta só a idéia de subir.

Pior que ela, escorrendo, cai a lava,

fervilha a larva: a gárgula baba.

Preciso me desviar, preciso me proteger.

Preciso continuar.

Não posso contar com a chuva pra gárgula amolecer:

Deixei-o lá tanto tempo

que de barro virou pedra,

que de pedra virou ferro,

que no ferro se inflamou,

da lava se alimentou.

Quero picá-la em pedaços,

destruir o seu poder.

Quero ver em pó seus cascos,

seus cacos fazer arder.

Levo comigo a máscara,

não do palco mas do médico,

do herói, do superpoder.

Vou subindo e conseguindo.

Mais um degrau mais um plano,

mais um medo mais impulso,

que do medo vem a raiva e

da raiva o alimento

da tal determinação.

Outro dia continuo,

Que a dor é grande demais.

Quero lavar meu sangue,
descontaminar a alma,
trocar os genes,

me livrar da praga.
Pra viver sem desabar,
prosseguir sem repetir,
ir em frente sem voltar,
renascer no pôr-do-sol,
esquecer de me lembrar,
só levar o que escolher.