neurotóxicos

... e chuvas esparsas

Tempo parado no ar. Grito parado no olhar.

Dedos crispados. Alma em transe.

Espero o gongo, o tiro, os tambores.

Não ouço.

Não foi dada a largada, senhoras e senhores.

Não é tempo. Haverá tempo?

O tempo dirá. O tempo virá?

A tempo. Será?

Quero ficar deitada, como plasta.

Quero ficar parada, dar um basta em toda pressa, em toda urgência.

Quero parar ponteiros, esperar um pouco ou muito,

respirar fundo, dizer ao mundo

que na urgência há negligência

do que importa, do que vale, veja lá:

Sorrisos? Suspiros? Paz?

Perfume, encontro, afeto, beijo?

Carinho, respeito, afago, abraço apertado?

Não os vejo, não combinam, não rimam com desenfreio.

Quando há pressa não há sonho, nem pensar em devaneio.


Não posso ficar do lado de fora da igreja: há gárgulas.

Que me espreitam me ameaçam.

Saltam das torres me pousam nos ombros.

Tenho medo sinto frio.

O mesmo monstro assume várias formas, age por várias fórmulas.

Não é monstro, ogro ou bruxa,

é gárgula,

mais que gárgula,

górgona,

abutre,

crocodilo,

assassino,

apavorante.

O grito prende na garganta:
as garras me esganam me sufocam me cortam o ar me arrancam do ar.

Em seu toque vejo ódio, hipocrisia, desamor.

De seus seios não sai leite, sai veneno, gota a gota, insidioso.

Suas pernas são rasteiras, seus abraços são grilhões.

Não me peçam atitudes,

não me cobrem raciocínio,

não me julguem, só me acolham:

fujo ou morro, sem senão.