neurotóxicos

... e chuvas esparsas

Se só de mim dependesse,
se forças inda tivesse,
da vida eu apagaria angústia, frio, preguiça.
Sem torpor, temor, tremores,
os braços acolhedores,
aos ventos insubmissa,
iria em busca de luz,
de sons, de cheiros, de flores.
De poesia, por que não?

Régua na mão, dona autocrítica
sem dó ou dor, apresenta exigências:
intratável, incansável,
me enfrenta e tenta
domar criações,
disciplinar pensamento
organizar conseqüências.

Agarra o chicote
e com ele pretende
tecer horários
diários,
diurnos e taciturnos,
organizados,
cronogramados.

Dona autocrítica pariu
de seu ventre a irmã censura.
Por parteira a amargura.
De enfermeiro o desamor.

Inimiga de si mesma,
estéril, intolerável,
quer me fazer como ela,
quer fechar minha cancela,
quer me tirar da janela.

Desista, dona autocrítica,
desista que vou embora.
vou ver a vida lá fora,
do mundo quero sorrisos,
não quero ouvir a senhora.